Furtaram minha bicicleta

furtaram minha bicicleta e a esperança
não voltarei pálido para casa
voltarei a pé ou de ônibus
chegarei cansado do mundo cru e horrendo

futaram minha bicicleta e o meu amor
que nunca chegou a ser amado
perdi o transporte e o emprego
que estava sem corrente e sem cadeado

existem peixadas nos empregos, nas agências, nos concursos
menos nas peixarias

meu poema e o povo se distinguem
o povo no poema se contrai
o povo e meu poema me angustiam
somos imensos de sofrimento
estamos de pé e a sorte disto
apenas relaxa a doença implícita

a fila nas repartições numeradas
do "serviço de atendimento ao cidadão"
reflete um pouco o meu desespero
que ainda permanece calmo
como quem espera uma notícia custosa

a burocracia e a vida toda a ser vivida
lidar com pessoas deve ser excelente
quando eu morrer, minha vida
não terá sido uma balada...

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